FAMÍLIAS PEDEM INSOLVÊNCIAS PARA ESQUECER DÍVIDAS À BANCA
Pedir
a insolvência é a última hipótese de as famílias
sobre-endividadas conseguirem ver perdoadas as suas dívidas. O
número de pedidos tem aumentado e a Deco, ainda que não aconselhe
esta opção, tem verificado cada vez mais casos em que não há
outra saída possível. Natália Nunes, coordenadora do Gabinete de
Apoio ao Sobreendividado, criado pela Deco para encaminhar
portugueses em dificuldades, explicou ao Dinheiro Vivo que as dívidas
das famílias à banca têm aumentado e que agora os portugueses
veem-se obrigados a escolher uma saída alternativa. O problema, diz,
é que "por vezes não há outra solução senão a
insolvência".
Desde
que a crise se instalou em Portugal, o número de pedidos de
insolvência aumentou consideravelmente. Entre o primeiro trimestre
de 2007 e o primeiro trimestre de 2012 houve um crescimento de 451,7%
nos pedidos a darem entrada na justiça portuguesa. Os números são
do Ministério da Justiça e sublinham dificuldades crescentes.
A Deco
não perspetiva grandes melhorias para um futuro próximo. "Tendo
por base aquilo que tem levado as famílias a entrarem em
dificuldades - desemprego e cortes - e perspetivando-se tanto para o
público como para o privado novos cortes, só podemos prever que o
número de famílias com dívidas vá aumentar", afirma Natália
Nunes.
É
que, como explica, "as famílias organizaram os orçamentos com
os vencimentos que tinham e não havia previsão de que a a sua
situação mudasse". O orçamento estava muito contado e não
admitia margem para cortes a subsídios, sobretaxas e redução dos
pagamentos às horas extraordinárias, explicou a responsável.
Num
contexto de dívida, o crédito à habitação é o maior problema
dos portugueses e o que contribui mais para o aumento do malparado no
País. Os números revelados pelo Boletim Estatístico do Banco de
Portugal revelam que dos 136 017 milhões de euros emprestados às
famílias portuguesas em agosto, 3,66% representam uma cobrança
duvidosa. Ou seja, 4977 milhões de euros são crédito malparado.
Por outro lado, e com mais 55% do que o registado em julho, a banca
tem junto das empresas 6879 milhões de euros de cobrança duvidosa.
Do total de 108 515 milhões emprestados às empresas, 9,8% são
crédito malparado.
Este
ano, as dificuldades têm sido mais visíveis. No Gabinete de Apoio
ao Sobreendividado já entraram mais pessoas do que durante o ano
passado inteiro. Só este mês, a Deco já recebeu mais de mil
contactos telefónicos e já atendeu presencialmente mais de 300
pessoas com dificuldades para pagar as contas. O número de sessões
de esclarecimento e ajuda já atinge os 4200 pedidos.
"Tem
que ver com a austeridade, com o aumento do desemprego e com o não
se estar a conseguir voltar ao trabalho tão rapidamente quanto se
esperava", explica Natália Nunes. É necessário introduzir
novos hábitos: "Os portugueses habituaram-se a ter seis
créditos: o da habitação, dois cartões, dois créditos pessoais e
mais um do carro", agora é necessário rever prioridades, até
porque o acesso a empréstimos também tem caído a olhos vistos:
menos 536 milhões de euros no mês de agosto, segundo o Banco de
Portugal.
Por:
Ana Maragarida Pinheiro

