UM
DIA NO... TRIBUNAL DE VALONGO
«O
que está na berra são as insolvências!»
O
Boletim ao foi visitar o novo Tribunal de Valongo para sentir o pulso
de
um tribunal de competência genérica. Tem 20 mil processos
pendentes, 70% execuções.
Ainda.
cheira a tinta
e a madeiras novas nas salas
de julgamento do Tribunal
de Valongo.
Inaugurado
no início do ano, este tribunal
de competência
genérica
deixa para
trás as más memórias do
antigo
edifício,
onde
arguidos e testemunhas
tinham
muitas vezes que esperar nas escadas pelo início
dos julgamentos.
"Estávamos a trabalhar
num buraco. Agora
até nos
distraímos com a vista", diz,
a sorrir,
a juiz
presidente do Tribunal, Sónia
Basto.
O
procurador do Ministério
Público,
Nuno
Faria,
recorda
que se tinha de encolher para que a colega com quem
dividia
o gabinete se pudesse
levantar.
Agora,
dispõe de um gabinete
amplo,
com
uma janela rasgada,
de
onde já não precisa
de ver os vizinhos
a
sacudir
a
roupa.
Nuno
Faria está ali desde Setembro
de 2007 e trabalha
só com crime.
Tem
em
mãos
cerca
de 350 processos, um número
que
considera
razoável
e
que,
faz
questão de sublinhar,
é menor quando
comparado com
os processos existentes
no
DIAP
do Porto.
O
caso que
até
agora
mais o marcou foi
um
processo
com
11
volumes
e
cerca
de 40 apensos sobre um tráfico
de
estupefacientes,
que
começou
com a denúncia
de um garoto
de uma escola de Ermesinde
VINTE
MIL PROCESSOS PENDENTES
Mas
os processos
que chegam
ao
tribunal
são muito diversos,
já
que a área geográfica
cobre
freguesias
tão diferentes
como
as de Valongo,
Ermesinde,
Alfena,
Campo
e Sobrado.
E se
nas
primeiras,
mais
urbanas,
predominam
os crimes contra o património
e as pessoas,
como
os casos de violência
doméstica,
nas
segundas, mais rurais,
já
são mais frequentes os furtos
(nomeadamente
de material
agrícola).
Desde que ali
chegou
que
Nuno
Faria tem assistido
a um
aumento
do número
de casos de violência
doméstica.
"Tem
havido um crescendo
de denúncias,
há
muitos
casos de violência
contra
idosos e surgem também
denúncias
apresentadas
por maridos",
explica,
acrescentando
que ficou essencialmente
surpreendido
com a situação de idosos
debilitados e vítimas
de violência
física
e psíquica.
A
juíz presidente
confirma
o aumento
de casos de violência
doméstica.
"A
crise
económica,
a
falta
de dinheiro,
reflete-se
dentro de casa",
considera
a magistrada,
acrescentando
que em situações
destas
os
juízes
não
podem correr o risco
de perder
a
objetividade.
Para
além do crime,
o Tribunal
de Valongo tem também
muitos
processos
cível.
Nesta área,
à semelhança
do que
acontece
em muitos outros
tribunais do País,
a grande
maioria são
execuções.
No total,
o tribunal
tem uma pendência
real de
cerca
de 20 mil
processos, divididos
por três
juízos.
Setenta por
cento
destes
processos são ações executivas.
Trabalhamos
muito,
a pendência
é grande, levamos
trabalho
para casa",
desabafa Sónia
Basto.
Sempre quis
magistratura
e, dentro desta,
nunca
hesitou
pela área
judicial.
"Quem
vem
para a magistratuta
tem vontade
de olhar
para os dois
lados e encontrar a parte justa",
diz
a juiz
presidente.
O tribunal
é grande,
repartindo-se
por diversos andares.
No primeiro
estão as
salas de
audiência,
o atendimento,
as várias
salas para
os
advogados.
Fernando
Costa,
advogado,
está
a aguardar o início
do julgamento de
uma ação ordinária
cível.
É a
primeira
vez que ali
entra e
também
ele não
tem
qualquer
dúvida
de que este
edifício
tem a
dignidade
que o outro
tribunal
não tinha.
Ao seu
lado estão
as testemunhas
que chamou
para a
audiência.
"O
outro
edifício
era muito
mau mesmo!",
desabafam, enquanto
a oficial
de justiça vai chamando
os presentes
para a
leitura
de decisão de um
processo de
interdição.
Ana Lourenço,
advogada,
está a acompanhar
um cliente
por causa
de um processo
de trabalho.
Faz muito
crime,
injúrias,
difamações
e muitas execuções.
Para além
de advogada,
é voluntária
na Associação
de Apoio à
Vítima.
Só em 2008
passaram-lhe
pelas mãos
cerca de 20
casos de agressões.
Ali,
na APAV,
escuta as
vítimas;
no tribunal
já foi
nomeada
defensora
oficiosa de
um agressor. "Sei
bem diferenciar as
situações",
esclarece.
UM
PSICÓLOGO
NO TRIBUNAL
No
segundo andar
do
tribunal
estão situadas
as secções dos funcionários
dos diversos
juízos e,
no
terceiro piso,
os
18 gabinetes
dos
magistrados.
Benjamim
Queirós
é
um dos
funcionários
mais
antigos
do Tribunal
de Valongo.
Chegou
ao antigo
edifício
há 15
anos
e
recorda-se
bem de,
no
inverno,
terem
de desligar
o elevador
para se
poderem
realizar
as
audiências,
porque
a instalação elétrica
não
aguentava
a sobrecarga.
Hoje,
depois
de
34 anos
de
tribunais,
não
tem dúvidas
de
que
este
edifício
é
mesmo
o melhor onde esteve.
Benjamim
conhece
bem
os cantos
à
casa.
"Chefe!
A
Dr.
a Juíza
pediu
um processo",
reclama
um funcionário.
Mas
Benjamim
já está ocupado
com um advogado que
acabou
de chegar.
"Já
trago
a relação
de bens,
o
móvel
é
só
um e existe um passivo.
Está
aqui
a certidão de
hipoteca."
Ao
fundo do
corredor das várias
secções dos diferentes juízos
funciona
o Tribunal
do Trabalho.
Mas a
secretária
judicial,
Fátima
Torres, tem muitas
queixas.
Diz
que o
espaço é
exíguo e não compreende
como não
há um
lugar
específico
para
atendimento
ao público.
No
piso de
entrada
está localizada
a secção
central
do tribunal.
Há também uma
sala destinada
à comunicação
social, para,
explica o
secretário
judicial
do tribunal
Artur
Barrias,
um julgamento
ou uma diligência
que atraia
muitos
jornalistas
ao tribunal.
Na secção
central
é feita a distribuição
dos
processos
cíveis e crime e
a contabilidade
de todos os
processos.
É ali
também
que se
faz o atendimento
geral do
público.
"Aparece
de tudo, muitas
vezes
a colocar questões
de Direito.
Quando
a comunicação
social informa
que a
pessoa tem
direito
a qualquer coisa, vem
logo uma carrada
de pessoas",
explica a funcionária
Maria da Luz
Torres,
acrescentando
logo de
seguida e
a sorrir
que "o que está
na berra
são as insolvências
singulares,
aparecem
todos".
E um
reparo de
quem já anda
há muito
tempo pelos tribunais:
"Nota-se que muita
gente
não é
insolvente,
têm
bens,
mas não em
nome deles.
Não seria
má ideia
termos de atendimento ao público.
As pessoas vão sendo
recebidas
pelos
funcionários,
que fazem a triagem
das respetivas
queixas,
encaminhando-as
depois para o procurador
do MP de
turno.
Maria da
Luz está
ali desde
1997, depois
de ter
vindo
dos Juízos
Cíveis do Porto. Também
já foi
responsável
pelo
Arquivo. E
aí,
explica,
aparece de tudo
um pouco
depois
de ter sido
apreendido
nos autos.
"DVD aos milhares,
óculos,
telemóveis
e até vibradores
e sinais de trânsito!",
conta a rir.
Para além
de tudo
isto, o Arquivo
- que
se encontra
situado num
andar inferior
do edifício
- acolhe
nada mais nada
menos do
que cerca
de 25 mil
processos.
Pelo
segurança
também
já passaram
as situações
mais
invulgares.
Para além
de algumas
armas e dos
já normais
canivetes, já chegou a apanhar
uma tesoura
de. poda. E
se ficou surpreendido
com o
objeto,
mais
surpreso
ficou
com a justificação
dada por
quem a trazia:
"Vou ao cemitério
a seguir!"
Também já
teve
de retirar
quatro
facas a uma senhora.
"O meu
ex marido
ameaçou-me,
eu sei
que ele anda de caçadeira
atrás
de mim!".
Por:
Ana Isabel Cabo